SAÚDE
Hormônios e saúde mental entram no radar da governança nas empresas
01/10/2026 12:38:00
Entrevista com Izabelle Gindri, co-fundadora e CEO da bio meds Brasil, laboratório com sede em Florianópolis
Oscilações hormonais podem interferir diretamente no funcionamento do organismo e também repercutir sobre a saúde mental. Alterações nos níveis de hormônios como cortisol, estrogênio, progesterona, testosterona e aqueles produzidos pela tireoide podem estar associadas a mudanças no humor, no sono, na energia e na resposta ao estresse. Em alguns casos, esses efeitos podem se manifestar como ansiedade, irritabilidade ou sintomas depressivos.
A relação, no entanto, não é simples. Hormônios não são os únicos responsáveis pelos transtornos mentais. A saúde emocional resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, genéticos, sociais e ambientais. Por isso, identificar uma alteração hormonal não significa, necessariamente, explicar sozinho um quadro de ansiedade ou depressão.
IMPACTO CORPORATIVO E O PAPEL DO RH Para os departamentos de recursos humanos de grandes empresas, entender essa relação ganha relevância em um momento em que a saúde mental passou definitivamente a integrar a agenda de gestão de pessoas. A sobrecarga mental, jornadas intensas e modelos de trabalho pouco sustentáveis já aparecem entre os principais desafios das empresas. Isso, porém, não significa reduzir quadros de ansiedade ou depressão a uma suposta alteração hormonal. A saúde emocional é resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos, genéticos, sociais e ambientais. Por isso, identificar uma mudança hormonal não significa encontrar, automaticamente, a causa de um transtorno mental.
“Um dos principais elementos dessa relação é o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Em situações de ameaça ou tensão, o organismo aumenta sua produção para preparar o corpo para reagir. Esse mecanismo é natural e importante para a sobrevivência. O problema pode surgir quando a resposta ao estresse permanece ativada por períodos prolongados, contribuindo para alterações no sono, na concentração, na disposição e na regulação das emoções”, comenta a cientista gaúcha Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), farmacêutica, co-fundadora e CEO da bio meds Brasil.
Homens e mulheres podem experimentar essas consequências. Em ambos os sexos, situações de estresse crônico, privação de sono e determinadas doenças podem afetar a produção hormonal e, ao mesmo tempo, aumentar a vulnerabilidade a sintomas de ansiedade e depressão. Essa discussão se conecta diretamente ao ambiente corporativo.
Pressão excessiva, sobrecarga, falhas de liderança e organização inadequada do trabalho estão entre os fatores psicossociais que precisam ser observados pelas empresas. A NR-1 ampliou o papel do RH na gestão destes riscos exigindo maior integração entre RH, saúde ocupacional, SST, jurídico e lideranças.
DIFERENÇAS ENTRE OS SEXOS E SAÚDE FEMININA E MASCULINA
Nas mulheres, as oscilações de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo menstrual, durante a gestação, após o parto e na menopausa podem influenciar o humor e a qualidade do sono. Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a essas mudanças, podendo desenvolver sintomas emocionais significativos em determinados períodos. Isso torna importante que políticas corporativas de saúde considerem diferentes momentos da vida profissional, evitando abordagens padronizadas que tratam todos os trabalhadores da mesma maneira. Programas de saúde da mulher, apoio durante a menopausa, acompanhamento médico e flexibilidade podem ganhar espaço em estratégias mais amplas de benefícios e bem-estar.
Nos homens, a testosterona também merece atenção. A redução dos níveis desse hormônio pode estar associada ao cansaço e alterações de energia e humor. Em alguns casos, homens com deficiência de testosterona podem apresentar sintomas depressivos. Isso não significa, porém, que toda depressão masculina seja consequência de baixos níveis hormonais. A avaliação médica é fundamental para diferenciar as situações.
“Nos homens, os níveis de testosterona tendem a diminuir gradualmente ao longo da vida. Nas mulheres, a transição para a menopausa envolve uma queda mais significativa na produção de estrogênio e progesterona. Essas diferenças fazem com que as manifestações sejam distintas, mas não eliminam a influência dos hormônios sobre a saúde mental em nenhum dos sexos”, reforça a especialista Izabelle Gindri.
A TIREOIDE E A NECESSIDADE DE DIAGNÓSTICO CUIDADOSO
A tireoide é outro exemplo importante. Alterações na produção dos hormônios tireoidianos podem provocar sintomas que se confundem com transtornos psiquiátricos. O hipotireoidismo pode estar relacionado a cansaço, desânimo, dificuldade de concentração e alterações do humor. Já o hipertireoidismo pode causar agitação, ansiedade, irritabilidade, insônia e palpitações.
Para Gindri essas sobreposições mostram por que o diagnóstico precisa ser cuidadoso. "Uma pessoa que apresenta tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade excessiva, alterações no sono ou falta de energia pode estar diante de um transtorno mental, de uma condição hormonal ou da combinação de diferentes fatores. A investigação deve considerar o histórico clínico, os sintomas, medicamentos utilizados e exames laboratoriais" reforça a especialista em saúde hormonal.
GESTÃO DE RISCOS PSICOSSOCIAIS E VISÃO INTEGRAL
A relação funciona nos dois sentidos. Não apenas os hormônios podem influenciar o estado emocional, transtornos de ansiedade e depressão também podem afetar processos relacionados ao sono, ao estresse, ao apetite e ao funcionamento do organismo. Este caráter multifatorial é especialmente importante para as empresas.
A atualização da NR-1 não atribui ao empregador a responsabilidade de diagnosticar doenças individuais. O foco está em identificar e reduzir os fatores relacionados à organização do trabalho que possam contribuir para riscos psicossociais. Na prática, isso significa que empresas não devem tentar explicar o sofrimento de um colaborador apenas por fatores pessoais ou biológicos, da mesma forma que não devem atribuir automaticamente qualquer quadro emocional às condições de trabalho. O caminho passa por acolhimento, encaminhamento adequado e políticas estruturadas de prevenção.
“Devemos evitar explicações simplistas, como atribuir ansiedade ou depressão exclusivamente a um “desequilíbrio hormonal”. O tratamento também não deve ser feito por conta própria, especialmente com hormônios. Dependendo da causa, a abordagem pode envolver psicoterapia, medicamentos, tratamento de doença hormonal, mudanças na rotina ou uma combinação dessas estratégias”, alerta Izabelle Gindri
Para os departamentos de Recursos Humanos, a saúde mental não pode ser analisada de maneira fragmentada. O avanço da agenda de riscos psicossociais reforça a responsabilidade das empresas sobre aquilo que está relacionado ao trabalho, como sobrecarga, assédio, pressão excessiva, ausência de apoio e falhas de organização.
Ao mesmo tempo, compreender fatores individuais e biológicos ajuda a evitar julgamentos precipitados sobre desempenho, comportamento ou produtividade. A saúde do trabalhador é resultado de uma combinação de fatores. Para o RH, reconhecer essa complexidade pode contribuir para políticas mais humanas, benefícios mais adequados e encaminhamentos mais responsáveis.
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