CONSTRUÇÃO
IA reduz em até 95% tempo de checagem de projetos e abre nova fase na construção civil
29/09/2026 09:13:00
AltoQi prepara para outubro solução que usa agentes de inteligência artificial na auditoria de projetos
Uma tarefa que pode consumir dias ou até semanas de trabalho técnico começa a ser concluída em menos de meia hora. Em testes realizados pela AltoQi, empresa brasileira de tecnologia para a construção, com sede em Florianópolis, agentes de inteligência artificial conseguiram checar, em cerca de 20 a 30 minutos, um modelo BIM de uma edificação de dez pavimentos, composto por aproximadamente 20 mil a 25 mil elementos. A redução chegou a 95% no tempo de análise.
SINALIZAÇÃO DE MUDANÇA DE ESCALA NO SETOR
O resultado sinaliza uma mudança de escala no uso da inteligência artificial na construção civil. Em vez de atuar apenas como ferramenta genérica para resumir documentos ou responder perguntas, a tecnologia passa a ser conectada aos dados reais dos projetos, com capacidade para identificar inconsistências, verificar informações e apoiar decisões antes que os problemas cheguem ao canteiro de obras.
Essa transformação, no entanto, ainda está apenas começando. Levantamento da Anthropic, uma das principais empresas mundiais de pesquisa e desenvolvimento em IA e criadora do Claude, sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho aponta que as atividades de arquitetura e engenharia apresentam cerca de 85% de exposição teórica à tecnologia, mas somente aproximadamente 5% de exposição observada, relacionada ao uso efetivamente registrado. Na prática, o setor ainda aproveita uma pequena parcela da capacidade disponível.
“Existe uma distância muito grande entre aquilo que a inteligência artificial já é capaz de fazer e o que o mercado efetivamente utiliza. O desafio agora é conectar essa tecnologia às soluções e aos dados que engenheiros e arquitetos já usam no dia a dia. É essa integração que permitirá aproveitar o potencial que ainda está represado”, afirma Peter Paredes, Business Developer Coordinator da AltoQi.
A AltoQi prevê lançar em outubro uma nova solução voltada ao recebimento, à auditoria e à validação de projetos BIM com agentes de inteligência artificial. A ferramenta fará parte da plataforma Visus e foi desenvolvida para enfrentar um dos principais gargalos do setor: garantir que as informações inseridas nos modelos sejam consistentes e possam seguir, com confiabilidade, para as etapas de quantitativos, orçamento e execução.
“Hoje, uma edificação de dez pavimentos pode reunir entre 20 mil e 25 mil elementos BIM. Fazer a revisão de cada item manualmente levaria dias ou semanas e, por isso, muitas empresas trabalham por amostragem ou simplesmente não conseguem realizar uma checagem aprofundada. Com o sistema, essa análise pode ser feita em 20 ou 30 minutos, com redução de até 95% no tempo”, afirma Paredes.
Segundo o executivo, a mudança não está apenas em executar mais rapidamente uma atividade que já existia. A inteligência artificial torna viáveis controles que, devido à quantidade de dados e à pressão dos prazos, muitas vezes nem eram realizados. A tecnologia faz uma primeira triagem do modelo e direciona o especialista aos pontos que exigem maior atenção.
“É como a triagem feita antes de uma consulta médica. A inteligência artificial percorre o projeto, o orçamento ou o planejamento, organiza os achados e entrega ao engenheiro os pontos mais relevantes. O profissional deixa de gastar tempo procurando onde pode estar o problema e passa a concentrar sua experiência na análise e na decisão técnica”, explica.
DADOS CONFIÁVEIS SÃO O PONTO DE PARTIDA
O avanço também reforça a importância do BIM, metodologia que reúne em um modelo digital informações técnicas que acompanham o empreendimento. Para Felipe Garcia, Product Marketing da AltoQi, profissionais e empresas que ainda trabalham apenas com projetos 2D e planilhas deixam de aproveitar não só os ganhos do BIM, mas também a capacidade da inteligência artificial de interpretar dados e apoiar decisões.
“A inteligência artificial é muito eficiente na análise e na interpretação de grandes volumes de dados. Quando encontra um modelo BIM estruturado, consegue verificar se as informações fazem sentido para as etapas seguintes, como quantitativos, orçamento e execução. Sem uma base de dados confiável, a resposta tende a ser genérica; conectada ao projeto, ela passa a considerar a realidade daquele empreendimento”, destaca Garcia.
Essa conexão é o que diferencia uma resposta baseada no contexto do projeto de uma recomendação genérica. Ao consultar diretamente as informações do modelo e dos sistemas usados pelo profissional, a tecnologia pode apontar elementos sem dados obrigatórios, incoerências entre disciplinas e condições que merecem revisão. A decisão final, porém, permanece com o engenheiro, que poderá verificar a origem das informações utilizadas pela ferramenta.
PRÉ-OBRA CONCENTRA AS MAIORES OPORTUNIDADES
Na avaliação dos executivos, o maior potencial imediato da inteligência artificial está na pré-obra, fase em que são definidos projetos, sistemas construtivos, especificações, quantitativos e orçamento. Quanto mais estruturadas estiverem essas informações, menor será a necessidade de improvisos durante a execução, quando uma alteração costuma ser mais cara e pode comprometer prazo e margem.
“Ainda vemos obras chegando ao canteiro com pouca informação sobre como executar. Antes de pensar em inteligência artificial, é preciso ter projetos, modelos, quantitativos, memoriais e especificações bem estruturados. A tecnologia amplia essa capacidade de análise e ajuda a antecipar decisões que afetam diretamente o custo do empreendimento”, observa Paredes.
A combinação entre BIM e inteligência artificial também pode acelerar a industrialização da construção, com maior uso de componentes e kits produzidos previamente e montados no canteiro. Para isso, decisões sobre métodos, materiais e quantidades precisam ser tomadas com precisão na fase de planejamento. O movimento ganha relevância em um setor que enfrenta escassez de mão de obra e busca elevar a produtividade e a atratividade para novos profissionais.
ENGENHEIRO GANHA UM SEGUNDO CÉREBRO, NÃO UM SUBSTITUTO
Para a AltoQi, o avanço da tecnologia não elimina a responsabilidade técnica nem substitui o conhecimento do engenheiro. Ao automatizar tarefas repetitivas, compilar informações e apresentar uma segunda leitura do projeto, a inteligência artificial devolve tempo ao profissional para aquilo que gera mais valor: avaliar riscos, comparar alternativas, reduzir custos e tomar decisões.
“Engenheiros e arquitetos não estudaram cinco, seis ou sete anos para passar o dia preenchendo planilhas e relatórios. A inteligência artificial pode assumir parte desse trabalho operacional e funcionar como um segundo cérebro, trazendo repertório e organizando informações. Mas o direcionamento técnico e a decisão continuam sendo do profissional”, ressalta Paredes.
Garcia acrescenta que a transição pode ocorrer de forma gradual. “O objetivo é ampliar a capacidade do profissional. Com a inteligência artificial, ele consegue realizar análises que antes não cabiam no prazo e trabalhar com mais velocidade, mas sempre com olhar crítico, rastreabilidade e possibilidade de auditoria.”
Ao transformar milhares de dados dispersos em informações úteis para a decisão, a inteligência artificial começa a atacar um problema histórico da construção civil: a perda de informação entre projeto, orçamento e obra. O impacto mais relevante, segundo os especialistas, não será simplesmente fazer o mesmo em menos tempo, mas evitar que erros avancem no processo e permitir que decisões melhores sejam tomadas quando ainda custam menos.
Sobre a AltoQi
A AltoQi é uma empresa brasileira de tecnologia para a construção civil, fundada em 1989, com sede no centro de Florianópolis. Com 37 anos de história, a AltoQi combina profundo conhecimento de engenharia com tecnologia de ponta para digitalizar e conectar todas as etapas do ciclo da construção — do projeto à gestão da obra.
A empresa atende mais de 67 mil clientes em mais de 15 países e conta com mais de 300 colaboradores, grande parte engenheiros.
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