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ESTRATÉGIAS
Depois de destruir equipamentos de barragem, índios adotam nova estratégia: agora, exigem cobrança eterna de R$ 1,00 nas contas de energia elétrica para deixar o Vale do Itajaí em paz
Caciques Xoclengues da reserva Duque de Caxias, em José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, querem cobrar R$ 1,00 em cada conta de energia dos habitantes de 10 municípios. É uma espécie de seguro-proteção, para que eles não voltem a invadir e depredar equipamentos da Barragem Norte. A exigência é absurda e não deverá ser levada em conta pelas autoridades

 

 

  Sempre a mesma coisa,
desde sempre

Carlos Tonet

A pendenga entre índios e a população do Vale é antiga. A bagunça se repete ciclicamente. Eles já foram indenizados. O problema é que a inépcia administrativa transformou a barragem em terra de ninguém. Lembro que eu mesmo estive várias vezes na barragem fazendo reportagens na década de 80, quando comecei minha carreira como repórter do Jornal de Santa Catarina. O esquema era sempre o mesmo. Os índios se amotinavam. Nós entrávamos na reserva e éramos imediatamente feitos prisioneiros. Éramos escoltados até o chefe. Então éramos liberados para fazer fotos e tomar as declarações. Eles pediam em qual canal ia passar. Inventávamos que era na TV Coligadas. Ia ficar difícil explicar para eles o que era um jornal.

Não sei se ainda estão “seqüestrando” repórteres por alguns minutos. Mas é uma história que dificilmente terá um final feliz. Aliás, acho mesmo que não vai ter final nenhum.

  Caso fossem atendidos em sua exigência de receber R$ 1,00 sobre cada fatura de energia elétrica, os índios da reserva de José Boiteux iriam faturar R$ 230 mil mensais. Veja quem teria de pagar o pedágio
 

Cidade

Consumidores

Blumenau

             102.250

Itajaí

                4.387

Navegantes

                1.069

Gaspar

                7.412

Indaial

                5.602

Ibirama

                  5.853

Rodeio

                  3.977

Ilhota

                  3.846

Apiúna

                  3.031

Ascurra

                  2.533

Total

            229.960

  Consumidores de energia elétrica nas cidades banhadas pelo Itajaí Açu abaixo da Barragem Norte. Dados de 2004. Fonte: Celesc

Lauro Juvei. Alfredo Patté. Elpídio Priprá. Clendô Criri. Vanhecu Ndilli. Icran Renaldo Morlo. Itáro Nunc-Fooro Floriano. Volnei Vonblei Camblem. Francisco Ndili Faria. Esses são os nove caciques indígenas de José Boiteux que assinam um documento sui generis: eles querem cobrar R$ 1,00 sobre cada fatura de energia elétrica dos consumidores da cidades banhadas pelo rio Itajaí abaixo da Barragem Norte. O Noticenter fez as contas e o resultado é o seguinte: se cada consumidor de energia elétrica pagar mensalmente R$ 1,00 aos índios Xoclengs, a tribo vai faturar R$ 230 mil por mês. Ou R$ 2,7 milhões por ano. A exigência vale para toda a vida. Uma espécie de mensalinho indígena.

O documento foi entregue pelos índios a autoridades no último dia 18. Eles já invadiram a barragem e causaram prejuízos de mais de R$ 1 milhão. Generosamente protegidos pela legislação, os índios mantêm toda a população do Vale do Itajaí sob suspense de suas ameaças. O pedido certamente não será atendido, mas, se fosse, poderia ser encarado como a criação de mais um imposto: o ISI – Imposto Sobre Índios, uma exclusividade fiscal da população do Vale do Itajaí.

Uma análise atenta ao documento evidencia uma particularidade: em sua exigência, os índios estão sendo injustamente injustos. Afinal, estão exigindo pagamento apenas das 10 cidades banhadas pelo rio abaixo da barragem. Deveriam pedir também das cidades que estão longe do rio, mas que também sofrem com as enchentes.
Estão perdendo dinheiro.

 

 

  Veja na íntegra o documento em que os índios exigem a cobrança do pedágio da população do Vale  
 


José Boiteux, 18 de Outubro de 2005
Ilmo Senhores

Prefeitos Municipais das Prefeituras a Jusante da Barragem Norte de José Boiteux Demais Autoridades Competentes.

Dando prosseguimento aos debates sobre os impactos negativos e os prejuízos que a referida Barragem causou a nossa comunidade indígena, queremos apresentar uma proposta de solução.

É de amplo conhecimento dos Senhores os benefícios permanentes que essa barragem propiciou a toda população do Vale do ftajaí, gerando tranquilidade às famílias e mais renda às empresas e ao comércio. É também de vosso conhecimento os impactos negativos que a mesma gerou sobre a nossa comunidade. Esses impactos negativos não são apenas permanentes, mas profundos e irreversíveis, o que significa que jamais alcançaremos a qualidade de vida que tínhamos antes da construção da barragem.

Entendemos que a responsabilidade pelo reparo dos prejuízos sofridos por nossa comunidade não se restringe ao Governo Federal e ao Governo Estadual, mas a todos os beneficiados diretamente pela barragem, o que inclui as Prefeituras Municiais, a população, os setores empresariais e o comércio.

Diante do exposto, queremos uma contribuição permanente, até que continuar existindo a barragem, por parte desses setores beneficiados diretamente. O montante a ser contribuído com a comunidade indígena deverá ser relativo a RS 1,00 (um real) mensal por cada fetura de energia elétrica, dos todos os munícipes dos municípios ao longo das margens do Rio Itajaí desde sua foz até a Barragem Norte. Os recursos a serem repassados a comunidade indígena serão de responsabilidade de cada prefeitura municipal, devendo esta arcar com o montante caso não seja alcançado o valor estipulado de R$1,00 por fatura de energia em todo território municipal. Os recursos serão repassados mensalmente.
Entendemos que ficará a critério de cada prefeitura a cobrança do valor estipulado na fatura de energia, podendo ser realizado por via espontânea ou por meio de legislação.

É essa nossa proposta.

Atenciosamente,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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