ECONOMIA
Falta de mão-de-obra especializada na área de confecção preocupa empresários do setor. Capacitação profissional é apontada como solução
 
A falta de mão-de-obra qualificada na área de confecção, principalmente na função de costureira, tem preocupado as empresas e as agências de emprego que trabalham diretamente com a seleção destes profissionais. Édiomar Bertoldi, consultor de Recursos Humanos da Tempo e Trabalho Assessoria, que atua em Brusque há 11 anos, afirma que muitas pessoas não têm qualificação técnica para atuarem na área de confecção. Bertoldi acredita que existem três fatores para Brusque se encontrar em tal situação.

"O primeiro é que por muito tempo as empresas não investiram no treinamento das pessoas, elas queriam o profissional pronto. Só que infelizmente o que ocorre é que se não houver o treinamento de outras pessoas, as que se encontram no mercado vão sair de tempos em tempos, devido às aposentadorias ou a vontade de mudar de ramo. O segundo fator que configura esse quadro é quanto ao pessoal que está chegando no mercado agora. Os adolescentes e jovens, não estão dispostos a trabalhar na área da produção, existe uma resistência maior, principalmente na área da costura, até porque os pais estão investindo mais no estudo de seus filhos, que por sua vez não querem mais seguir o caminho da mãe que foi costureira a vida inteira.

O terceiro fator que agrava ainda mais a situação, é o preconceito em relação à mão-de-obra masculina na costura. É sabido que em outras regiões que são pólos de confecção também, a mão-de-obra masculina representa de 50% à 60% das linhas de produção de costura. No norte do Paraná, por exemplo, isto gira em torno de 48%. No interior de São Paulo têm cidades que chegam até a 60%. Aqui em Brusque existe uma resistência quanto a isso por parte dos próprios homens e também das empresas. Logo estes três fatores juntos fazem com que esse quadro esteja dessa forma hoje", comenta.
 
A Arbeiten Assessoria Empresarial, sente a mesma dificuldade. De acordo com a recrutadora Patrícia Marquetti da Silva, que atua na área há dois anos, muitas pessoas que procuram emprego não possuem os pré-requisitos necessários exigidos pelas empresas, como experiência mínima de um à dois anos e estabilidade na carteira de trabalho. "Toda vez que abrem vagas para costureiras, dificilmente conseguimos preenchê-las e acabamos fechando a vaga por falta de candidatas", afirma.

A psicóloga e analista da RH Brusque, Vânia Lopes, afirmou ao O Município, que a falta de mão-de-obra qualificada não é apenas para a função de costureira. "No ramo de confecção em geral há bastante procura. Seja para auxiliar de talhação, revisão, enfim, geralmente há muitas vagas e falta de profissionais qualificados", comenta. A RH Brusque, que funciona há quase dois anos, é um serviço de assessoria e recursos humanos da ACIBr - Associação Industrial e Comercial de Brusque, Sindilojas - Sindicato dos Lojistas e CDL - Câmara de Dirigentes Lojistas. "O interessante é que para a realidade de Brusque e região, costureira é uma profissão muito requisitada, mas em outras regiões, não é tão freqüente esse ofício, por isso é difícil encontrar pessoas que já venham com essa experiência", avalia a psicóloga.

Como as empresas avaliam essa situação

O Município consultou o gerente industrial da empresa Warusky, Ciro Keller, que trabalha há 31 anos no ramo de confecção e ressalta que o setor sempre teve dificuldades em relação à mão-de-obra. "Nós temos vagas para costureira abertas o ano inteiro e não conseguimos preenchê-las porque a concorrência é muito grande. São os serviços informais, que não são registrados em carteira, como por exemplo algumas facções, que têm um peso muito grande, pois eles atendem a necessidade financeira das pessoas do lado de casa", comenta.

Atualmente a Warusky conta com 480 funcionários, sendo que 80% fazem parte do setor produtivo. A empresa tem hoje seis células de costura. Porém, segundo o gerente industrial, há condições físicas de se montar mais duas células. "Não temos condições de montar, pois não temos mão-de-obra disponível no mercado. Por isso terceirizamos parte de nossa produção, através das facções. E essa mesma deficiência que temos hoje aqui, é regional. Nos locais onde temos facções, como Blumenau, Gaspar, Indaial,
Timbó, Rodeio e Ascurra, eles também sentem a mesma dificuldade", afirma.

Segundo Keller, a falta de mão-de-obra atinge a função de costureira, bem como outros segmentos do mercado da confecção, como a área de estamparia, revisão e até mesmo na área administrativa técnica. "Nossa região carece de mão-de-obra qualificada e é preciso fazer apelos às entidades, para que elas promovam a formação técnica e profissional das pessoas. Porque o mercado de trabalho existe, mas não existem profissionais", analisa.

Para Vidal Bazanini, gerente industrial da Fadel Fabril, que conta hoje com 260 funcionários, a falta de costureiras no mercado, faz com que os salários subam cada vez mais, o que demonstra que uma profissional desta área, não ganha tão mal perto de outras profissões operacionais. "Tem costureiras recebendo, com os benefícios indiretos, R$ 900 mensais. E se o salário delas continuar a subir, teremos um problema grave, pois isso começa a inviabilizar uma série de questões dentro das empresas. Considerando que a empresa vai exportar, se os salários subirem muito, haverá problemas de competitividade, pois o câmbio já não é favorável e se houver problema com o acréscimo de mão-de-obra, a empresa já estará perdendo em competitividade. Por outro lado, pode aumentar ainda mais o interesse das pessoas para esse campo de trabalho", destaca.

Bazanini salienta que existem pessoas com interesse e disponibilidade de trabalhar nessa área, porém, as empresas exigem qualificação. "Tenho visto que não tem havido uma renovação nesse campo profissional e há alguns motivos que levam a não haver essa renovação. Entendo que é uma profissão que não trás um interesse maior das gerações que estão vindo, ou seja, as filhas de costureiras e outras moças que estão querendo uma oportunidade no mercado de trabalho, não simpatizam com esse tipo de profissão. Inclusive vejo que as moças mais novas, preferem até mesmo ganhar um salário menor em uma outra função, para não trabalhar na área de costura", afirma.

Além disso, Bazanini destaca que há algum tempo as fábricas investiam alto em treinamento, o que não ocorre mais hoje. "Antes as empresas tinham uma preocupação e promoviam treinamento e formação de mão-de-obra, em parceria com entidades como o Senai", salienta.

O que preocupa é que o mercado passa por uma transição de gerações, ou seja, há muitas costureiras atuando, próximo à aposentaria. Então se a empresa está tentando uma renovação e até mesmo uma ampliação na área produtiva, se depara com o problema da falta de mão-de-obra qualificada. "De tempos em tempos abrimos vagas para costureiras e não conseguimos preenchê-las. Vejo que em Brusque a falta de profissionais qualificados é maior do que em outras cidades, como Blumenau. É um problema sério, pois trata-se de uma área têxtil extremamente desenvolvida e exportadora", observa.

Segundo a diretora da empresa R.C. Conti, Rita de Cássia Conti, há vagas abertas para costureira há oito meses. A empresa conta atualmente com 240 funcionários, sendo que desse total, 40% são costureiras. "Esse percentual só não é maior, porque não tem quem empregar. Realizamos uma pesquisa na região e pretendemos abrir uma nova unidade em outra cidade que responda nossa demanda. O nosso maior problema são as facções, que pagam R$ 20 ou R$ 30 a mais e o trabalhador acaba não valorizando os benefícios que recebe, além da carteira assinada", analisa.

Qual a melhor saída

O consultor da Tempo e Trabalho, Édiomar Bertoldi, acredita que a melhor saída para o mercado de confecção, seria absorver a mão-de-obra masculina no setor da costura. "Chegamos em um nível que se o empresariado local e o poder público não pararem para tratar essa situação de forma profissional e até mesmo corajosa, daqui a poucos anos esse mercado vai entrar em um colapso. Acredito que existem saídas, entre elas está a flexibilização das empresas para treinar as pessoas e a conscientização dos jovens que estão nas escolas de que a área produtiva é tão digna e profissional quanto outras
áreas. Para se ter noção, há um ano e meio uma costureira que sabia trabalhar em duas máquinas ganhava um salário em torno de R$ 500. Hoje, com menos de R$ 700 não se consegue contratar uma costureira. Nosso quadro é muito preocupante, pois em outras áreas como a metalúrgica e a têxtil, as empresas contratam pessoas sem experiência e as treinam. Já na área de confecção, isso não ocorre. Posso dizer que há quatro anos temos enfrentado esse tipo de situação no ramo de confecção e não vejo nada de concreto sendo feito pelas indústrias, sindicatos e associações desse segmento, o que é muito preocupante", disse ele ao jornal.

O gerente industrial Ciro Keller também acredita que a saída está em fornecer treinamento técnico para as pessoas. "Deveria haver uma preocupação das entidades do município em ter escolas profissionalizantes, para preparar mais essa mão-de-obra, no intuito de que haja mais disponibilidade de pessoas para o trabalho", avalia.

Na empresa R.C. Conti, esse treinamento já virou realidade. De acordo com a diretora Rita de Cássia, a empresa realizou um projeto de formação e qualificação para jovens, em parceria com o SENAI. Três turmas de 10 a 12 costureiras já foram formadas e empregadas pela empresa.

A jovem Marli Burmann dos Santos, 23 anos, trabalha há pouco mais de um ano na empresa e foi uma das alunas formadas pelo projeto. "Antes não sabia nem sentar na frente de uma máquina de costura, agora já sei trabalhar em diversas máquinas", relata.

Marli é um exemplo de que se as empresas, em parceria com as entidades, levarem a idéia do treinamento e qualificação de profissionais adiante, o mercado de confecção pode enfrentar as dificuldades que têm atualmente com a falta de mão-de-obra qualificada, principalmente no que se refere às costureiras. (Fonte: O Município)