Assim que se formou no curso técnico de
processamento de dados, no final da década passada, Ionan
Fernandes trocou Belo Horizonte, sua cidade natal, por
Joinville, a 1 100 quilômetros ao sul. Muitos colegas
estranharam a decisão. A capital mineira oferecia muitas
oportunidades de trabalho em tecnologia, enquanto a cidade
catarinense, com uma população cinco vezes menor, era mais
conhecida pelas indústrias tradicionais, especialmente nos
segmentos metal-mecânico e metalúrgico. O rapaz tinha, no
entanto, uma estratégia de carreira bem delineada. Aproveitando
que dispunha de um "paitrocínio" para bancá-lo durante algum
tempo, ingressou no primeiro curso superior do Brasil para
formação de consultores em ERP (sigla em inglês para
Planejamento em Recursos Empresariais), que tinha sido lançado
pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) em
parceria com a fabricante de softwares de gestão Datasul. Seis
meses depois de matriculado, estagiava na própria Datasul.
Hoje, aos 26 anos, Ionan tem argumentos de
sobra para demonstrar que o plano deu certo porque já subiu
quatro degraus hierárquicos na empresa. Ele é gerente de novos
negócios da Datasul Outsourcing. Fez até uma especialização em
marketing de relacionamento nos Estados Unidos durante oito
meses. A vida pessoal também vai bem. A namorada Sabrina Fausti,
de 29 anos, socióloga, mudou com ele para Santa Catarina e
trabalha para um instituto de opinião que atende empresas de
informática. Ambos adoram a cidade. "Joinville oferece excelente
qualidade de vida, com a vantagem adicional de estar perto de
praias maravilhosas e também do friozinho da serra", diz Ionan.
O casal faz parte de um movimento que está
mudando gradualmente o perfil da economia da maior cidade de
Santa Catarina. Até pouco tempo atrás, quem nascia em Joinville
ou se mudava para lá tentava conseguir emprego em organizações
como a Tigre, a Embraco e a Multibrás. De meados dos anos 90
para cá, graças ao desenvolvimento do setor de tecnologia, os
profissionais passaram a ter mais uma boa opção de carreira em
companhias de software e de TI. Os anos 90 foram decisivos para
o que acontece hoje também porque as empresas de informática se
aliaram a universidades locais para oficializar a existência de
um pólo tecnológico na cidade.
Foi então criada a Softville, incubadora de
novos negócios na área. Desde esse momento, 15 empresas surgiram
na cidade. O projeto oferece espaço físico, infra-estrutura
compartilhada e acesso a linhas de financiamento naqueles anos
críticos em que a empresa dá os primeiros passos. Em dezembro do
ano passado, três incubadas alcançaram a "maioridade" e foram
graduadas, enquanto quatro outras ingressaram no programa,
selecionadas por um processo contínuo aberto a pessoas físicas
ou jurídicas que apresentem um plano de negócio. "Nossa meta
para os próximos anos é dobrar os números atuais, permitindo a
entrada de seis novas empresas por ano e abrigando 20 empresas
simultaneamente", diz Ademir Rossi, gerente executivo da
Fundação Softville. "Candidatos não faltam, já que chegamos a
receber 30 projetos por ano." A cidade conta ainda com outra
incubadora de empresas de tecnologia com porte semelhante, a
Midiville, mantida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai).
GERAÇÃO DE EMPREGOS
De olho nessa tendência, as universidades locais se mobilizaram
para formar mão-de-obra suficiente para abastecer as empresas do
setor. Ali, as organizações de tecnologia crescem ao ritmo de
25% ao ano, contra a média de 6% das indústrias tradicionais. E,
apesar de não haver um levantamento oficial sobre geração de
empregos no ramo, sabe-se que a demanda por profissionais cresce
todos os anos. Hoje, Joinville oferece quatro cursos superiores
voltados a tecnologia, além de quatro cursos profissionalizantes
de Segundo Grau e várias alternativas de pós-graduação. Juntos,
esses cursos forneceram ao mercado cerca de 500 formandos no ano
passado, dos quais poucos reclamaram de desemprego. Na verdade,
a maioria começa a trabalhar no ramo enquanto ainda estuda.
A primeira organização a despontar por ali, a
Datasul, continua sendo uma das maiores referências para quem
busca colocação no mercado catarinense. Ela emprega quase 900
pessoas na cidade e outras 1 400 Brasil afora. Só no ano
passado, abriu 290 vagas -- todas já preenchidas. A companhia
fatura 300 milhões de reais por ano e há três anos consecutivos
é classificada no Guia EXAME-VOCÊ S/A As Melhores Empresas
para Você Trabalhar. "Na cidade encontramos facilmente
programadores em início de carreira graças aos bons cursos que
surgiram nos últimos anos", diz Alice Feuser, gestora de capital
humano da Datasul. "Nosso desafio ultimamente tem sido
selecionar profissionais para níveis mais altos, porque ainda
temos de ocupar 20% dos cargos com gente de fora." Para reforçar
a formação dos funcionários e identificar talentos que possam
assumir novas responsabilidades, a empresa criou a Academia
Datasul e busca parcerias como a que viabilizou a criação do
curso feito pelo mineiro Ionan Fernandes.
Com o rápido crescimento, a Datasul passou a
enfrentar falta de espaço físico para receber tanta gente nova e
está investindo 14 milhões de reais na construção de mais um
prédio, com 8 600 metros quadrados, em um terreno ao lado da
sede atual. Com isso, dobrará o espaço disponível para
desenvolvimento de softwares e estrutura de atendimento aos
clientes. Alice comemora o fato de a empresa estar em uma cidade
média como Joinville. "Assim, temos como reter os profissionais,
já que por aqui não há o mesmo assédio dos grandes centros",
explica. O oposto também vale: os funcionários se sentem mais
seguros com o baixo turnover e o maior grau de estabilidade.
"Demissão por aqui é a última saída mesmo. Preferimos investir
na formação dos profissionais e na recuperação de quem precisa",
diz Alice.
No rastro da Datasul e de toda movimentação em
torno da informática surgiram empresas que também se tornaram
conhecidas nacionalmente. Uma delas é a Logocenter, que atingiu
porte se melhante ao da concorrente após se unir à Microsiga, no
ano passado. Outro exemplo é a Microvix, especializada no
desenvolvimento de produtos para gestão empresarial baseados na
internet. A Microvix começou há oito anos apenas com os três
fundadores e hoje tem 50 funcionários. A maior parte deles é de
jovens recém-formados, que passaram a ter acesso a benefícios
como participação nos lucros e cursos de idiomas e pós-graduação
financiados pela empresa. Um deles é Daniela Valcanaia Moret,
gerente de suporte técnico, de 22 anos. Há dois anos na Microvix,
ela recebe um salário de 2 000 reais e já planeja o próximo
passo do seu crescimento profissional: concluir a pós-graduação
em finanças. Metade da mensalidade é paga pela empresa.
Nascida em Joinville, Daniela decidiu fazer a
faculdade de Sistemas de Informação influenciada por um cunhado
e por alguns amigos que trabalhavam na área. Formou-se no ano
passado. "O retorno está vindo muito mais rápido do que eu
imaginava. No meio do curso eu já estava empregada", diz. "Não
devo sair daqui tão cedo." Daniela tem razão em planejar o
futuro da sua carreira na cidade natal. Além de empresas
consolidadas e de incubadoras, Joinville tem outro grande
projeto para impulsionar o setor de tecnologia.
Atualmente, empresários, universidades e
governantes estão se esforçando para instalar o chamado Parque
Tecnológico. A idéia é que ele possa concentrar as incubadoras e
as empresas que saem dali para caminhar por conta própria. O
investimento previsto é de 50 milhões de reais, incluindo a
aquisição de um terreno com pelo menos 200 000 metros quadrados
e todas as obras necessárias de infra-estrutura. "A fase é de
negociações para definir o papel de cada uma das partes
envolvidas", diz Ademir, da Fundação Softville. "Mas de uma
coisa ninguém duvida na cidade: Joinville será cada vez mais
reconhecida como pólo tecnológico."
TERRITORIO DOS BITS
Conheça alguns números do pólo tecnológico de Joinville*
5000 EMPREGOS - já foram criados
no município por companhias de informática
200 EMPRESAS - de todos os portes
estão ligadas ao setor de tecnologia na cidade
700 MILHÕES DE REAIS -
representam o faturamento anual das companhias do ramo
Fonte: Voce SA - Edição 92 -
Fevereiro 2006